No fio da faca, ganha-se a vida

Foto: Nelson Cadena

Foto: Nelson Cadena

Tarde de quarta-feira, em frente ao Elevador Lacerda. Girolando prepara sua apresentação das 13 horas, horário escolhido a dedo: “O povo tem mais tempo na hora do almoço e está mais relaxado. Depois de um rango, o coração fica mole e solta uma grana”, explica. Desde os 16 anos de idade, Girolando Enéas da Silva é artista de rua e fatura um troco pulando por dentro de um círculo de fogo rodeado por facas. O que parece arriscado para os espectadores é, para ele, apenas um meio de sobrevivência.

Por Nelson Cadena

Girolando enrolando

O show começa com o fósforo riscado sobre os panos embebidos em álcool que cobrem as facas, inseridas nos buracos de um aro de bicicleta. “É para chamar a atenção desde o início”, justifica. Na seqüência, passeia em volta do público, olho no olho, dramatizando cada palavra. Anuncia a sua intenção de pular no meio das chamas. A hora chegou!

Mas não chegou. Ele recua. É preciso mais perigo. Girolando tira da maleta uma faca maior e a coloca em pé do outro lado do aro. Enfia nela uma laranja com casca para mostrar que está bem amolada. Pronto para o malabarismo, se concentra, dá um passo a frente, fecha os olhos, recua de novo.

Então, anuncia que dentro de cinco minutos fará o seu show que é mágica pura. Tão pura quanto a pomada milagrosa que tira do bolso e exibe orgulhoso para o público. Mostra a imagem do rótulo,  um dragão cuspindo fogo. A pomada do dragão é boa para frieira, fungo, dor nas costas, ou nos quartos, lumbago, gota e até erisipela. É só “passar assim”, mostra, “pressionando os dedos sobre o lugar”.

” Quatro reais apenas, duas passagens de ônibus. Quatro reais uma latinha, sete duas” . Mal anuncia e cobre sua própria proposta: “três por dez! Se não funcionar, pode vir aqui e devolver”, diz enrugando a testa. “Quem vai comprar?”, pergunta. Nesse momento puxa a maleta e despeja no chão dezenas de latinhas . Em seguida, junta todas para evitar que alguém mais ousado as pegue.

Com as mãos em concha, segura um bocado e volta a repetir as suas propriedades medicinais, as vantagens do preço e as garantias de devolução do produto para não deixar dúvidas sobre as  qualidades apregoadas.  Afinal, “São mais de vinte anos, minha gente, vendendo a pomada do Dragão e ainda não apareceu ninguém para reclamar. Resolve mesmo”.

A hora chegou

Vinte minutos corridos desde o início da performance, Girolando recolhe o dinheiro obtido com a venda, 12 reais, desta vez. O público cobra: “Pula!, Pula!, Pula!”  Ele pede tempo para se concentrar e a garantia de cinco reais para quem quiser tirar uma foto. “Se for de celular, três Reais vai”. Acende o fogo, desconversa, dá uma volta, se aproxima do aro e pula sobre com o fogo, já apagado quando ele efetivamente cumpre o prometido. Os aplausos se confundem com os risos da platéia e o comentário inoportuno de um rapaz: “Esse cara é picareta.”

“Picareta é sua mãe”, rebate Girolando de pronto, alegrando ainda mais a turma que aos poucos se dispersa. O relógio do elevador mostra que é hora de voltar ao trampo.  Para o consultor de marketing Francisco Pessoa, os vendedores de pomada deveriam ter seu lugar no rol na lista de sacadas de marketing. “Vendedores de pomadas milagrosas são marqueteiros natos. Aliam uma habilidade artística a uma boa argumentação. E transformam isso num meio de vida que, pode não ser confortável, mas é diferente. E se há recompensa para a alma, tudo vale a pena”.

Enquanto descansa para a próxima apresentação, que ocorre invariavelmente às 17 horas, final de expediente dos escritórios do Comércio, Girolando conta que seu nome é de pila, e não nome artístico. Culpa de seu Manoel, lá de Estância, que achou o nome bonito e convenceu a moça do cartório a fazer o registro. Ex-palhaço de um circo, foi Manuel quem lhe ensinou os primeiros malabarismos.

2 Comentários

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2 respostas para No fio da faca, ganha-se a vida

  1. Rogério Duarte

    Parabéns, Nelson, por essa excelente matéria. Realmente, quem anda pelas ruas do centro de Salvador, sempre encontra pessoas que fazem da arte sua única fonte de renda.
    Parabéns, também, para esses “artistas das ruas”.

  2. Amarildo Barbosa

    A história de Girolando é mais uma, entre tantas. História de pessoas que por falta de oportunidades mais estáveis acabam indo para as ruas fazer arte para sobreviver. Geralmente são pessoas com alguma habilidade que se torna um atrativo para vender os seus produtos. O problema é a procedência das pomadas “milagrosas”. Geralmente não passam pelo controle da vigilância sanitária. Quem compra tem que assumir o risco.

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